Abril

Na Sociedade Lineana, em Londres, no dia 1 de julho de 1858, a comunidade científica teve acesso pela primeira vez a uma teoria que se propunha a explicar a origem da diversidade biológica e provaria ser revolucionária.  Naquele dia foram lidos artigos nos quais Charles Robert Darwin (1809-1882) e Alfred Russel Wallace (1823-1913)
apresentavam a teoria da seleção natural, por eles formulada de maneira independente. Por esta razão, no ano de 2008, comemoramos 150 anos da primeira divulgação de uma teoria da evolução que não somente mudou completamente a tradição dos estudos sobre os seres vivos, como teve um impacto que ultrapassa em muito os domínios da biologia, tendo repercussões na nossa compreensão do ser humano e do universo.

No ano de 1859 houve a publicação da obra seminal de Charles Darwin, A Origem das Espécies, que de fato inaugurou o darwinismo como um programa de pesquisa, reunindo uma série de naturalistas ao redor da tarefa de compreender a diversidade biológica e sua origem. Para muitos, foi a Teoria da Evolução que de fato consolidou
a própria Biologia como uma ciência autônoma, estruturadora do trabalho dos biólogos por todo o século XX e até hoje. Assim, o ano de 2009 foi denominado pela International Union of Biological Sciences como o ‘ano de Darwin’, não somente porque se comemoram 150 anos da publicação de A Origem das Espécies, mas também porque se
completam 200 anos desde o nascimento de Darwin, ocorrido em 12 de fevereiro de 1809.

Deste modo, os anos de 2008 e 2009 oferecem excelentes oportunidades para a realização de eventos que visem à popularização das idéias de Darwin e de outros naturalistas, que contribuíram para a construção do pensamento evolutivo, no Brasil e no mundo. Trata-se também de um momento privilegiado para que sejam discutidos aspectos contemporâneos da biologia evolutiva, lado a lado com aspectos históricos e filosóficos. Todas estas iniciativas podem ter implicações importantes para a melhoria da educação científica, tanto formal quanto não-formal, no que diz respeito ao pensamento evolutivo. Chamar a atenção da população em geral para a importância da teoria da evolução e da realização de Darwin é fundamental neste momento, quando surge no Brasil e em outros países um forte movimento anti-científico que procura reduzir o valor dessas contribuições. Disseminar o trabalho de Darwin, Wallace e demais naturalistas da época é importante ferramenta para possibilitar um passeio na história da ciência em geral, pois a divulgação, pela primeira vez, em 1858, do trabalho de Darwin e Wallace, nos remete à questão da ética na ciência. A teoria em si é um modelo para os iniciantes na pesquisa, pois traz indagações, questionamentos e mostra como se dá a construção da ciência – a partir de perguntas que não findam jamais.

Também não devemos perder de vista que nosso país teve um papel importante na vida de Darwin, durante a viagem do Beagle. Ele passou duas vezes pelo Brasil, durante a circunavegação realizada pelo brigue inglês, nos anos de 1832 e 1836. Em 20 de fevereiro de 1832, o Beagle aportou em Fernando de Noronha, o que teve como
resultado notícias em jornais brasileiros sobre a chegada de um navio inglês em território nacional, num momento em que as relações entre Brasil e Inglaterra eram tensas. Em 28 de fevereiro daquele ano, o Beagle aportou em Salvador. Darwin esteve na cidade até 18 de março, tendo realizado várias expedições que desempenharam papel importante no chamado processo de sua ‘conversão’ para o evolucionismo. Foi nas cercanias de Salvador que Darwin vivenciou pela primeira vez a experiência de caminhar pelo interior de uma floresta tropical, como ele descreve com cores vívidas e emocionadas no diário escrito ao longo da viagem do Beagle. Também durante sua
estada na Bahia, o naturalista começou a coletar dados geológicos que lhe sugeriram que a profundidade do mar de fato havia variado ao longo do tempo, tal como Charles Lyell descrevia em seus Princípios de Geologia, que Darwin estava lendo durante a viagem. Além disso, nos diários do Beagle, temos um importante e interessante testemunho da relação de Darwin, como um homem de outra cultura, com a rica cultura da cidade de Salvador, seu repúdio à escravidão, a natureza intensa e pitoresca de sua relação com a população negra da cidade, bem como o natural estranhamento que ele sentiu diante de algumas situações vividas na cidade, como em sua caminhada pelas ruas no primeiro dia de Carnaval. Em 29 de março de 1832, Darwin desembarcou em Abrolhos e, em 4 de abril, chegava à cidade do Rio de Janeiro. Nesta região, ele realizou importante excursão por terra até o norte fluminense, de 8 a 24 de abril de 1832, além de termos mais relatos interessantes de suas relações com a nossa cultura. Finalmente, em 5 de julho, deixou o Brasil, seguindo para Montevidéu. Em 1836, Darwin voltaria a Salvador, entre 1 e 5 de agosto, dali seguindo para Recife, onde ficaria de 7 a 12 de agosto.

Assim, os anos de 2008 e 2009 têm um significado especial para nosso país, que teve papel relevante no processo formativo deste naturalista de importância fundamental na história da humanidade. Diante de tal significado, mostra-se surpreendente, por exemplo, como a passagem de Darwin pelo Brasil está pouco presente no ensino de Biologia em nosso país. Os livros didáticos brasileiros, por exemplo, praticamente nada falam sobre a passagem de Darwin pelo Brasil, mas sempre mencionam sua visita a Galápagos, inclusive propagando mitos sobre o papel que esta visita teve na construção de seu pensamento sobre evolução. Desse modo, os anos de 2008 e 2009 oferecem uma excelente oportunidade para mudar este estado de coisas, através de atividades de popularização e difusão da ciência que estejam voltados para estes episódios históricos.

Integrando-se ao movimento internacional de comemoração do “Ano de Darwin”, várias instituições brasileiras já estão organizando diversas iniciativas científicas, educacionais e culturais, divulgando a relevância da teoria da evolução biológica e a contribuição de Darwin. Para coordenar esses esforços, está sendo formado um grupo de
trabalho, com a participação de associações científicas, centros de pesquisa, universidades e outras instituições. Este grupo, que começou a se estruturar em uma reunião realizada no dia 15 de julho de 2008, durante a 60ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), estabelecerá contato com todas as
instituições nacionais interessadas em desenvolver ações relativas ao “Ano de Darwin”, estimulando a colaboração entre as mesmas, divulgando as iniciativas planejadas, sugerindo atividades e atuando junto aos órgãos de fomento à pesquisa, à educação e à cultura, em todos os níveis, para obter o apoio necessário à concretização

http://www.ano-darwin-2009.org/anodarwin.html

 


-------------------------------------------------------------------------------------------------
Gostou deste conteúdo? Guarde no seu bookmark ou compartilhe com seus amigos.
Passe o mouse no botão abaixo e selecione o serviço de sua preferência.




Administração Central
Av. Juriti, 457 - Moema - São Paulo - SP - CEP: 04520-000
Tel. (0xx 11)5054-4360 | Fax. (0xx 11)5054-4390 | acf@acf.org.br